Sábado, Março 19, 2005

Marías1

Amanhã na Batalha Pensa em Mim

Nunca ninguém pensa poder vir a encontrar-se com uma morta nos braços e que não mais verá o seu rosto cujo nome recorda. Nunca ninguém pensa que alguém vá morrer no momento mais inoportuno, apesar disso estar sempre a acontecer, me acreditamos que nunca poderá morrer junto de nós alguém a quem não esteja previsto que isso aconteça. Muitas vezes ocultam-se os factos ou as circunstâncias: aos vivos e àquele que morre - no caso de ter tempo para sse dar conta disso - envergonha-os muitas vezes a forma da morte possível e as sua aparências, também a causa. Uma indigestão de marisco, um cigarro acendido no momento de adormecer que pega fogo aos lençóis ou, ainda pior, à lã de um cobertor; um escorregão no duche - a nuca - uma pancada no fecho da porta do quarto de banho, um raio que fende uma árvore numa grande avenida e essa a´rvore que ao caír esmaga ou ceifa a cabeça de um transeunte, um estrangeiro talvez; morrer em peúgas, ou num cabeleiireiro com um grande barbeiro, num prostíbulo ou no dentista; ou comendo peixe com uma espinha atravessada, morrer engasgado como as crianças cuja mãe não se decide a meter-lhes um dedo na garganta para as salvar; morrer quando se está a fazer a barba, com uma face cheia de espuma e a barba para sempre desigual até ao fim dos tempossem ninguém reparar nisso e por piedade estética terminar o trabalho; isto para não mencionar já os momentos menos nobres da existência, os mais recônditos, dos quais nunca se fala a não ser na adolescência porque fora dela não há pretexto para isso, apesar de haver quem fale deles para fazer uma graça que nunca tem graça. Mas essa é uma morte horrível, diz-se de algumas mortes; mas essa é uma morte ridícula, diz-se também, entre gargalhadas. As gargalhadas surgem porque se fala de um inimigo por fim desaparecido ou de alguém remoto, alguém que nos afrontou ou que há muito habita no passado, um imperador romano, um tetravô, ou então alguém poderoso em cuja morte grotesca se vê apenas a justiça ainda vital, ainda humana, que no fundo desejaríamos para toda a gente, incluindo nós. Como me alegro com essa morte, como a lamento, como a celebro. Às vezes é suficiente para causar o riso que o morto seja alguém desconhecido, cuja desgraça inevitavelmente risível lemos nos jornais, pobrezito, diz-se emtre risos, a morte como representação ou como espectáculo de que se dá notícia, todas as histórias que se lêem ou escutam entendidas como teatro, há sempre um grau de irrealidade naquilo que nos comunicam, como se nada se passase nunca realmente, nem sequer o que acontece connosco e não esquecemos. Nem sequer aquilo que não esquecemos.